domingo, 19 de agosto de 2007

3º Capítulo - Parte III

Um dia cheguei na sala de aula e não vi Rosângela. Não estranhei, pois ela costumava faltar. Teca, nossa colega, sentou-se ao meu lado.

- Tenho uma notícia ruim para te dar.

- Que foi Teca?!

- É com Rosângela...

- Que foi menina?! Fala!

- Ela sofreu um acidente de carro e tá no hospital.

- Como é que pode?! Ontem ela tava bem?! Que brincadeira de mal gosto é essa, Teca?!

- Não é brincadeira. Eu liguei pra casa dela hoje de manhã pra ver se ela me passava a matéria de segunda-feira e a empregada me deu a notícia.

- Não é possível! Onde ela tá?! É grave?!

- Não sei onde ela tá, mas parece que é grave.

- Eu vou lá!

Levantei-me atordoado, liguei para a casa dela, peguei o endereço do hospital e fui direto para lá, sem dar explicação ao inspetor do colégio.

Não conseguia pensar direito... Rosângela não podia me deixar! Logo agora que eu havia encontrado uma amiga! Que vida madrasta! Não! Ela não podia me deixar!

Cheguei ao hospital e perguntei sobre Rosângela. Informaram-me que ela estava no CTI. Percebi a real situação. O estado dela era grave. A recepcionista informou-me em que andar eu poderia obter mais informações.

Assim que o elevador abriu a porta no andar indicado, avistei a mãe de Rosângela chorando, amparada por um senhor que deveria ser o pai.

- Dna. Laura! Como é que ela tá?! - Perguntei e ao me ver chorou ainda mais.

- Quem é você? - O senhor perguntou-me.

- Jeremias. Eu sou amigo dela lá do colégio. Como é que ela tá?!

- Ela acabou de falecer...
- O senhor abraçou-se a Dna. Laura e os dois choraram.

Foi como se perdesse o chão. Senti um grande aperto no peito. Minha cabeça doía, mas não me importava. Andei pelos corredores do hospital totalmente absorto. Depois de algum tempo, sentei-me em um banco e ali fiquei por muito tempo.

Não lembro como cheguei em casa. Assim que entrei minha mãe percebeu que algo estava errado.

- Jeremias! O que foi que aconteceu?!

Sentei na poltrona e chorei desesperadamente, alheio às perguntas de minha mãe, que me deu calmante, leite, chá e tudo mais que pudesse me tranqüilizar. Depois de algum tempo consegui me refazer e falar com ela.

- Rosângela morreu.

- Como?! Ela era uma menina!

- Desastre de carro.

- Como foi que aconteceu?!

- Não sei, nem me interessa. O que importa é que ela morreu e me deixou aqui sozinho.

- Você não tá sozinho meu filho! Você tem sua família! Você vai encontrar outra namorada! Você vai ver! - Percebi o quanto estava sozinho mesmo. Eu era um estranho para minha família. Eles não estavam interessados em me conhecer e sim, em idealizar um Jeremias que nunca iria existir.

- A senhora não sabe de nada! - Levantei-me e fui para o meu quarto.

Não consegui falar mais nada. Deitei na minha cama e chorei a noite toda. Perdera minha única amiga... Como iria fazer agora? Com quem iria conversar? Ela era tão jovem, tão cheia de vida, tão bonita... Por que Deus não me levou? Minha vida não prestava mesmo...

No dia seguinte meus pais entram no meu quarto.

- Jeremias, vem comer alguma coisa. - Disse minha mãe. Balancei a cabeça em negativa.

- Jeremias... a gente sabe que o primeiro amor parece que vai ser o único... mas com o tempo você vai conhecer outra meninas... - Olhei para ele e chorei. - Vamos Madalena! Deixa ele sozinho. - Saíram do quarto.

Peguei meu caderno e desabafei escrevendo durante horas. Havia chegado a uma conclusão... Meus pais não me conheciam... O mundo me rejeitava... A única pessoa que gostava de mim, como eu realmente era, tinha ido embora... Não suportava viver uma vida de homem... Não tinha mais sentido continuar...


Não fui ao enterro de Rosângela, nem à aula durante o resto da semana. Meus pais ficaram muito preocupados. Eu estava calmo. Havia tomado uma decisão definitiva...




Na sexta-feira seguinte à morte de Rosângela, meu pais tinham uma reunião de condomínio. Costumavam ir juntos a essas reuniões.

Minha mãe tomava uns comprimidos para dormir. Quando me vi sozinho em casa, Fui até o quarto deles e procurei os comprimidos. Achei duas caixas, uma cheia e outra pela metade. Peguei, também, remédio para pressão alta e analgésicos. Voltei para meu quarto. Tirei todos os comprimidos das cartelas e tomei, primeiro os tranquilizantes, quando comecei a me sentir sonolento, tomei os para pressão alta e analgésicos. Queria que a combinação fosse fatal, não queria vomitar nada... Deitei-me... Com a certeza mórbida de que aquele seria meu fim...


Acordei num lugar estranho. Logo percebi que estava em um hospital. Tentei levantar-me, mas minha cabeça parecia pesar uns vinte quilos. Sentia-me muito mal, enjoado, deprimido, fraco. Meus braços estavam amarrados e havia uma agulha espetada em um deles, parecia soro.



Uma tristeza me invadiu ao perceber que não tinha morrido. Ter que voltar para aquela vida vazia e sem sentido era pior que a morte.


Minha mãe tinha voltado em casa para pegar um documento e achou estranho aquele monte de cartelas de comprimidos vazias e o jeito como me deitei... O resto foi correr para me salvar...


Minha mãe se aproximou da cama.

- Jeremias, meu filho! Por que você foi fazer isso?! Você não tem pena de mim?! - Não conseguia falar, minha língua não se movia. - Desculpa meu filho! Eu sei que você ainda tá muito fraco! Seu pai também tá muito preocupado.

Fiquei três dias no hospital. Meus pais não me pressionaram para responder perguntas. Na opinião deles eu havia tentado o suicídio por causa da morte da minha primeira paixão.

Por algum motivo que desconheço, desisti da idéia de me matar. Talvez o ocorrido tivesse me mostrado que ainda precisava viver e provar para mim mesmo que eu era capaz de superar tudo. Mas essa era apenas a primeira tentativa de suicídio... Outras viriam mais tarde...

Depois fiquei sabendo como foi o acidente de Rosângela. Ela voltava de carro de uma festa com uma amiga, que estava dirigindo, e bateram em um ônibus... As duas morreram... A pergunta que não saía da minha mente era: - Por que ela morreu e não eu?


Voltei à vida normal buscando forças para lutar, no entanto a infelicidade e o vazio continuaram a devorar minha alma...

Um comentário:

Raphael Martins disse...

Os bons morrem antes, como diria Renato Russo.